Cronistas

Ronnie Vitorino

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Desabado de um tomate

10/04 de 2013 às 06:04

Estou vermelho na cor e de vergonha. De tanta vergonha, daqui a pouco minha cor passa ser roxa e dirão que passei do ponto. Sei que tenho uns irmãozinhos bastardos de marte ou dar argentina, que são verdes. Mas, minha cor predominante sempre foi o vermelho. Não que eu seja comunista, pelo contrário, pois estou na salada, na pizza, no macarrão, no strogonoff, nos teatros, mas agora vão me deixar estragar nas prateleiras dos supermercados.


 


Querem me boicotar? Cambau em mim?! Ei: Já fui tema de filme!


 


Será que precisarei de uma glasnost ou de uma perestroika para voltar à mesa do proletariado? Presidente me ajuda! Nunca me jogaram na senhora. A senhora é da mesma cor que eu por dentro e por fora. A senhora tem aliados que são melancia: Verdinhos por fora, mas vermelhos por dentro. A nossa cor é a do amor. Ajude-me. Estamos juntos!


 


Pasmem, a coisa chegou a tal ponto, que tem até caqui querendo se passar por mim. Isso é crime!!!


 


O pior é ver o preconceito. Só porque estou em alta, a alface, um serzinho verde e medíocre que acalma, não quer mais dividir um prato comigo. Fica de lado com suas lagartixas me olhando feio. O que é isso, companheira?


 


E o pepino? Tanto o em rodelas quando o em tiras, estão se sentindo. O pepino e a alface são subprodutos. Sou eu, tomate, quem sempre deu sabor à comida do brasileiro. Sim, pois em pizzas, nunca vi alfaces ou pepinos. Mas, eu sempre estou lá: Redonda, pomposa. Tanto em rodelas, quanto no molho.


 


Veio a Dona cebola me aborrecer também. Justo ela que nos fazem chorar por um ex-qualquer-coisa que te abandona; te deixa com bafo, veio tirar satisfação de mim! Logo eu, que cuido da próstata e regulo a flora intestinal. Cebola... Sai pra lá. Querem você na churrasqueira ou enfeitando pratos.


 


Pôxa, eu sempre estive na salada e, agora, querem me tirar? Impeachment? Eu sou o presidente da salada. Eu dou sabor nos lances sendo o ketchup. Eu sou importante no contexto da humanidade!


 


Sou, também, molho. Sou eu quem dá o sabor ao seu domingo no spaghetti e na lasagna. Ou acham que essa coisa chata de ‘alho e óleo’ é bacana? É legal para quem está com frescurite de emagrecer. Aqui o sistema é bruto! Engordo, mas dou pressão arterial.


 


Como será a pizza de marguerita sem tomate? Na verdade, como serão as pizzas sem mim? Que coisa mais sem sabor...


 


Eu vou, na verdade, inflacionar o mercado gastronômico. E contra a minha vontade.


 


Como serão as peças teatrais ruins sem a minha presença? É uma delícia me jogar em atores e peças ruins. Dá aquela sensação de poder aos espectadores: Tomate neles! Como é bom fazer parte do cenário e da maquiagem. Gosto de colorir.


 


Eu não quero, de maneira nenhuma, que o Ovo me substitua. Já basta terem atirado um ovo no Serra. Eu sou macio e dou o recado.


 


A berinjela, chata e sem sabor, vem tirar sarro de mim. A rúcula e o agrião, as irmãs amargas, dizem que ficarei para trás. E, até o jiló, prato típico dos chatos, tira um sarro de mim.


 


Quero acreditar que não seja a minha extinção. Não quero acabar como o gerúndio: Desmilinguido, esquecido da boca do povo, mas presente no pensamento.


 


É triste saber que sou tanta coisa, e nem me dei conta. Assim como um monte de gente que é e nem sabe por que veio, mas sempre vai sem rumo.


 


Desculpem pelo desabafo. Apenas não quero virar um prato de sobremesa caro, um suco exótico ou uma porção requintada junto com gente chata como a mozarela de búfala ou ovas fedorentas.


 


Abraços do amigo,
Tomate (aquele que te dá sabor e não tem IPI)

Comentários:

    Jociara Sardo. falou em: 22 DE ABRIL DE 2013 as 19:27
Adorei a crônica! Muito criativa...

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