Cronistas

Ronnie Vitorino

    998

Casais Contemporâneos

17/07 de 2013 às 04:28

Em tempos de casamentos relâmpagos, onde se separar ficou mais fácil e rápido que pedir um lanche no Mc Donald’s, existem casais que insistem e ficar juntos. Não só por se amarem e se tolerarem, mas por descobrirem juntos, diferentes formas de se viver a dois.


 


O mais fácil e simples, num primeiro choque de realidades e de culturas quando se casa, é pedir arrego e voltar para casa dos pais. Na verdade, só os fortes sobrevivem a terrível sina que o cotidiano imputa a todos. Claro que há exceções e não entrarei no mérito delas, pois o foco é dos que tentam, de diversas maneiras, ficar juntos e viver, na sobriedade do Amor, divertindo-se com as diferenças do outro.


 


Há casais que, já viciados naquela rotina casa-trabalho-casa-dorme-ronca-solta pum-vira de lado-dorme, se rebelam e mudam tudo. Assim foi com a Belinha e o Mauro. Largaram emprego e a comodidade do luxo que os grandes centros proporcionam, e foram viver de luz. Compraram barracas e foram acampar mundo afora. Vivem vendo as estrelas, tomando sol e pedindo carona. Não têm mais celulares, conta no twitter ou no facebook. Dão notícias, quando muito, por cartas escritas em papel de pão. Cada dia é uma emoção diferente. A última notícia que ambos têm do Brasil foi o impeachment do Collor. Bem, de lá pra cá, não mudou muita coisa.


 


Um dos maiores motivos que causa separações, hoje em dia, é o uso demasiado da internet e o que ela proporciona. O tal do Candy Crush e suas intermináveis fases, tem causado mais desavenças que ciúmes. A Maria e o Pedro, casal que está junto há mais de 12 anos, quase se separaram dia desses. Viciados, em tempos remotos, em Bingo e Jogo do Bicho, atualizaram-se e resolveram aderir a joguinhos da internet. Péssimo negócio. Quando perceberam que a disputa estava acirrada demais e que o relacionamento iria cair mais que as pedras do Tetris na fase nove, tiveram uma longa conversa num cassino clandestino para se desintoxicar. Jogaram tanto e, claro, perderam tanto, que desistiram dos jogos. Mesmo dos mais inofensivos. Apagaram todos os aplicativos de jogatina do celular e instalaram inúmeros de esporte. Montaram uma academia em casa onde recebem amigos para sessões diárias de esteira e socos no saco de boxe.


 


Os homens, sempre acostumadas a ser servidos no ambiente doméstico, também têm arregaçado as mangas e assumiram os serviços do lar. E, isso não é só para lavar louça, estender e recolher uma roupa. Tem muito marmanjo passando roupa melhor que a 5àsec e cozinhando melhor que o Alex Atala. Os homens estão se reinventando nos serviços da casa, querendo seu espaço na cozinha e deixando o sofá e os comentários sobre futebol para suas esposas.


 


E é assim com a Lavinha e o Alcides. Ela, que até uns dois anos nem se importava com futebol, virou a maior crítica do presidente do São Paulo Futebol Clube, a quem apelidou, carinhosamente, de Gepeto. E, enquanto ela passa raiva vendo o futebol do seu clube ir pra escanteio, Alcides brinca na cozinha.


 


Ah... O Alcides...


 


Até bem pouco tempo, ficava vidrado em frente da televisão assistindo todos os canais de esporte que sua super TV paga lhe proporcionava. O centro do sofá afundou. Suas camisas ficaram manchadas de tanto ele limpar as mãos engorduradas de pipoca na dita cuja. E a Lavinha, claro, se rebelou. Pediu divórcio. Quebrou o controle da televisão. E ficou inadimplente da super TV paga só para não ouvir mais os comentários do craque Neto nos jogos.


 


Até que tudo mudou. Conversaram e, para o relacionamento ter um up, inverteram os papéis. Hoje ela se sai super bem em conversas sobre futebol. Já ele... É praticamente um estagiário da cozinha. Além de não ser remunerado para função, só faz asneira e acha que é mestre cuca.


 


Como os serviços da casa nunca acabam ele tenta se virar em dois para não decepcionar a amada. Mas, o cara se confunde com tudo. Dia desses, na ânsia de deixar tudo preparado e arrumado para um almoço de gala, ele pisou na bola. Antes, ele recolhe a roupa, dobra, coloca no cesto para passar, volta à cozinha, tira o frango já temperado do forno, desliga o arroz, tira a pressão do feijão e coloca os pratos na mesa. Como não poderia faltar algo para beber, tira da geladeira um suco de laranja fresquinho. A Lavinha chega do seu encontro matinal dos sábados da torcida desorganizada do Juvenal Juvêncio e vê o marido em pânico. Ela se senta calmamente e ele começa:


 


- Calma, princesa. Seu súdito já vai lhe servir. Está tudo preparado.


 


- Fica calmo. Você está uma graça de avental.


 


- Obrigado. Como foi a reunião da organizada?


 


- Ah... Querem fazer um manifesto no Morumbi pedindo pro Gepeto se aposentar... Você vai lavar essa louça toda, né? Como você suja as coisas, meu Deus.


 


- Vou sim. Fique tranquila. Hoje eu estou como as Casas Bahia: Dedicação total a você!


 


E lá foi o estagiário colocar toda comida na mesa. Serviu direitinho como se fosse um garçom e comeram. Lavinha não quis comentar, mas o frango estava um pouco salgado, o arroz parecia escola de samba (foi servido em blocos) e o feijão parecia uma sopa. Mas, valeu a intenção. Lá pelas tantas, já saciada a fome, Lavinha pergunta:


 


- E a salada? Não vai ter? Esqueceu? Ah, o suco estava ótimo!


 


- Salada... Eu estava com a alface na mão...


 


- Deixa. Vamos estender a roupa.


 


- É. Vamos.


 


- ALCIDES!!!


 


- O que eu fiz? Coloquei roupa colorida com roupa branca?


 


- Não! Você colocou a alface na máquina de lavar roupa! Você estava com a cabeça onde?


 


- No frango...


 


- Vamos voltar ao normal. Você não pode cuidar.


 


- Pôxa, veja pelo lado bom: Ao menos ficou bem lavada, centrifugou, prestamos um bem ao meio ambiente, já que havia...


 


- Para tudo! Só falta você querer fazer um vinagrete aqui da próxima vez!


 


- Não seria uma má ideia.


 


- Hoje você vai dormir no sofá.


 


É... Embora haja muita mudança para o casamento não acabar e todos tentando se adaptar às novas tendências, algumas coisas nunca mudam: Sempre são os homens que, por qualquer probleminha doméstico, dormem no sofá.

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