Cronistas

Ronnie Vitorino

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A volta

11/12 de 2019 às 11:45


Eis-me aqui novamente. Depois de três anos e quatro meses, quando escrevi a saga das minhas quarenta semanas de gravidez do meu primogênito, muita coisa aconteceu: Do prazer de ter tido o primeiro filho, até a vinda da minha princesa Eduarda - sapeca, linda e falante.


 


 Nesse meio tempo em que estive ausente de vocês, o autismo me abraçou. Felipe foi diagnosticado e pertence ao seleto grupo daqueles que estão dentro do espectro. Digo seleto, porque é um privilégio viver num mundo só seu, onde não há espaço à inveja, à indiferença e à outras mazelas das pessoas típicas, que só tem atitudes atípicas. Mas, vamos deixar o TEA para outro dia.


 


Esse intervalo que nos separam da crônica de agosto a essa, a fábula das perguntas só aumentaram. Juro que tenho saudades da época em que só indagavam se o rebento já havia rebentado. Pois bem… Logo na maternidade, instantes antes do médico nos mostrar a criança…


 


- E… Tá vindo… Tá chegando…


 


E eu já agoniado, quase desmaiando.


 


- Calma. Ixe…


 


- O que foi, doutor?


 


- É que… É ruivo!


 


- Ruivo? Não… Deve ser sangue, doutor. Passa um pano aí na cabeça do menino


 


- Quem fez mais de mil partos foi eu ou você?


 


- É… Bem… Eu nem posso fazer, só ver mesmo.


 


Pois é. E aquele bebê de pele clarinha e cabelo laranja foi chegando perto da gente, chorando e o cabelo parecia que passava de laranja para vermelho. Até que a esposa vira pra mim indignada e diz:


 


- Ronnie, como assim ele é ruivo?


 


- Como assim? Você pergunta isso pra mim? Eu é quem te pergunto?


 


Saio da sala de cirurgia e lá está a minha sogra, mãe, cunhada e amigos. Todos, absolutamente todos, se viram e me perguntam: “Ele é ruivo mesmo?”. Juro que eu queria responder: Não, gente. Ele nasceu com uma peruca e me disse - Rá, pegadinha do malandro - Porém, eu todo polido, educado e já esperando pelo que viria acontecer nesse restinho de vida que me resta, apenas respondi com um singelo “sim, ele é ruivo demais”.


 


Chego no quarto. Meu pai, no auge dos seus quase oitenta anos, parece não acreditar no que todos comentam. Minha mãe, tentando achar uma explicação diz:


 


- Benzinho, o seu pai era ruivo também.


 


- Meu pai? Mas, meu pai de qual encarnação você se refere?


 


As pessoas foram chegando para visitar o pequeno e eu lá, ouvindo aquelas piadas de pessoas ruivas, fazendo um Google sobre tudo dos cabelos alaranjados, até que chega um amigo, lá pelas tantas da noite e me faz a pergunta que eu ouvi o dia inteiro:


 


- Cara… Como assim? De onde vem esse cabelo? Quem é ruivo na família?


 


E eu, no auge da minha paciência, respondo seco:


 


- O pai!


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