Cronistas

Ronnie Vitorino

    983

A Loira do Banheiro

07/02 de 2012 às 01:53

Ainda pequeno, ouvia meus coleguinhas de primário comentarem sobre a loira do banheiro. Todos diziam que a viam, menos eu. Alguns diziam que até conversavam com ela. Ficava frustrado, decepcionado, choroso.


 


Tinha uma certa artimanha para vê-la, mas sempre esquecia na hora "H". Acredito que era algo mais ou menos assim: Dar descarga três vezes (pra gastar bastante água do colégio) com a porta fechada, dizer três palavrões e correr para o espelho. Só assim ela aparecia. Na verdade, naquela época meu conhecimento de palavrões não era tão vasto. Ficava mais no cocô, bumbum e pipiu. Estes eram os três únicos palavrões que conhecia. Como era de formação católica severa, de família tradicional, mesmo aos dez anos de idade, era só o que sabia. Talvez por isso ela não aparecesse, talvez fosse uma tremenda safada.


 


Certa vez, fui com um amigo no banheiro. Ele fez o que tinha que fazer e começou o ritual. Ao olhar para o espelho começou a chorar. Chorava tanto, tanto que fiquei preocupado.


 


- Sessé, o que foi?


 


- Ela não aparece mais pra mim.


 


- Ela quem?


 


- A loira do banheiro. Já faz duas semanas que ela não aparece mais. Você já viu ela?


 


- EU? Eu não. Nunca vi. Acho que ela não gosta de mim. Sei lá.


 


Fiquei com dó do menino, todo espinhudo e com orelhas de fandangos. Coitado, acho que ela não aparecia mais tendo em vista a feição grotesca dele. Vai saber.


 


O fato era que alguns amigos meus nem queriam mais ir ao banheiro, pois tinham medo que a loira saísse do espelho e os atacasse (dependendo da loira até poderia atacar. Mas só se fosse hoje em dia e, de preferência, no meu banheiro!). Coisas da infância. Havia meninos que urinavam nas calças só para não ir ao banheiro. O xexéu que ficava na sala de aula era horrível. Outros, mais danadinhos, invadiam o banheiro das meninas, pois a loira só ficava no banheiro masculino.

Nunca cheguei a pegar trauma de banheiro em razão disso. Pelo contrário, gostava de ir. Era bom para matar aula. Às vezes até esquecia de que ela poderia estar lá depois de uma invocação.


 


Certa vez, até tentei ver a tal loira no espelho. Perguntei antes ao meu amiguinho, Dantesco, como era o procedimento. Explicou detalhadamente e falou para ter cuidado, pois ela poderia me atacar (!). Ensinou-me um palavrão novo que aprendeu no estádio de futebol e me incentivou.


 


Fui lá, todo cheio de si, para ver a famosa senhorita. Ficava imaginando como ela seria. Na verdade, ninguém falava sobre o arquétipo da cidadã. Eu achava que ela era assustadora, com um nariz enorme, várias verrugas e um cabelo todo embaraçado.


 


Diz a lenda, que quando ela era criança, a tal loira não saia do banheiro dos meninos e morreu afogada tentando fazer lavagem cerebral na privada. Cheguei a sonhar com ela me dizendo: "Lave as mãos, seu porco!", mas era tudo imaginação minha. Enfim...


 


Voltando à minha peregrinação ao banheiro, tranquei a porta do gabinete, dei as descargas e a privada disparou. Fiquei apavorado. A água começou a transbordar. Não parava mais de sair água. O banheiro começou a ficar inundado e eu desesperado. Comecei a falar repetidas vezes o palavrão que o meu amigo me ensinou. Fiquei nervoso e comecei a sair, apavorado. Antes de abandonar o recinto, dei uma olhada no espelho e, acreditem, lá estava ela, a loira. Fiquei pasmado. O impressionante era que ela se parecia muitíssimo com a Diretora da escola, a dona Rina. Ela abre a boca e diz:


 


- Por conta disso, esse mês sua mensalidade terá uma taxa extra.


 


Gelei na hora. Fiquei certo de que a tal loira não existia, que meu pai iria me matar e que só existia uma loira do banheiro: dona Rina. Não me perguntem como ela entrou lá nem o que fazia, pois na hora não tinha como pensar nisso. Só pensava na taxa extra na minha mensalidade.


 


Hoje, mais crescidinho, sei que se realmente existe uma loira do banheiro, essa é a Dona Marta, que continua me assolando com taxas e mais taxas.

Dá pra alguém fechar o registro?!

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