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Ano Sabático

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E cá estou de novo. O cursor pisca e me lembro das minhas últimas palavras nesse espaço. É um longínquo 1º de outubro de 2014, véspera das eleições. Época em que as pessoas desfizeram amizades, brigaram com parentes e mostraram o seu lado mais Darth Vader nas redes sociais por conta de ideologias político-partidárias. E, depois de pouco mais de um ano, as mesmas pessoas, que no Natal voltaram a ser amigos, voltaram a se digladiar com as mesmas ladainhas. Humanos...


 


Mas, o enredo da crônica de hoje não é sobre conflitos dos filósofos facebookianos. Tão pouco sobre a lista de Schindler do Eduardo Cunha.


 


Há pouco mais de um ano, resolvi parar com essa coisa de escrever e me dedicar a... A nada! Fiquei com vontade de não fazer nada conscientemente. Sem culpa do ócio intelectual. Pensar cansa. Ler gasta mais calorias que horas na academia ou missas do padre Marcelo. E eu, num surto de revolta, resolvi que ficaria um tempo, seja ele qual fosse, sem fazer nada.


 


Não voltei mais à academia. A pança cresceu e a balança não parou de me informar, que os dígitos subiam em disparada junto com o dólar.


 


E olha, não morri de tédio. Claro que, vez ou outra, dava uma espiada no caderno de esportes, no meu horóscopo e acompanhei por algumas semanas o Big Brother.


 


Por dias, durante a noite sentado em minha varanda gourmet comendo uma coxinha, com uma lata de cerveja numa mão e o cigarro na outra, minha esposa me perguntava:


 


- O que você está fazendo?


 


- Administrando o ócio.


 


Meu ano inerte não foi como o da maioria dos sabáticos, que querem fugir da realidade brasileira. Gostei de me aventurar nos trens de São Paulo com os vendedores ambulantes. Fiz amizades duradouras, que me renderam boas risadas quando eu não pensava em nada. Fiz algumas visitas em Franco da Rocha, Diadema, Carapicuíba, Itapevi. E, tudo isso, sem dar uma de mochileiro com o Euro lá nas alturas da Escandinávia.


 


Percebi, após esse período sem pensar em nada, sem ler nada, sem me envolver em discussões que não levam a nada no facebook, que há gentileza nas ruas; que as pessoas são carentes não só de dinheiro e comida, mas de uma boa piada; que tem gente que vive com muito pouco, mas é muito feliz com o nada que acham que tem; que há pessoas vivendo relações sinceras com desconhecidos e; que tem muitos e milhares de cidadãos que pouco se importam com a opinião que você tem, pois não faz a mínima diferença para elas sobreviverem.


 


No fim das contas, achei que não fosse pensar em nada por, simplesmente, por já ter visto tudo aquilo. E foi justamente o contrário: Percebi que há muito que se aprender onde se acha que não tem nada.

    Autor: Ronnie Vitorino