Deprecated: mysql_connect(): The mysql extension is deprecated and will be removed in the future: use mysqli or PDO instead in /home/cronista/public_html/Connections/painel_config.php on line 10
Imprimir - Mulher de cronista
Cronistas.com.br - Mulher de cronista

Mulher de cronista

Voltar para crônica

Após um dia ensolarado de trabalho na rua, chego em casa. Deixo a mochila na sala e dou uma chegada na cozinha para ver como está a situação. Deparo-me com uma deliciosa pia cheia de louça para lavar. Tiro o sapato. Arregaço as mangas. Coloco a avental e vou, novamente, enfrentar outra árdua tarefa.


 


Inclusive, lavar a louça é uma terapia sensacional. Você fica ali com a esponja, detergente e água trocando uma ideia, viajando e limpando a maionese dos talhares numa conversa com seu pensamento.


 


E eu achando que só no banho se tinha ideias mirabolantes para escrever. Não que uma pia engordurada inspire grandes invenções ou textos, mas é um momento em que você está concentrado no sabão escorrendo e no escorredor vazio, prestes a virar uma arte de arquitetura.


 


No verão, lavo a louça para me refrescar. Além da louça, como chego do trabalho antes da dileta esposa, aproveito para recolher a roupa do varal, dobrar e arrumo todas as outras roupas no cesto para a ajudante semanal passar as benditas.


 


Com tudo arrumado na casa, faço da cozinha meu “escriteco”. Ligo o notebook e faço um suco qualquer. Começo a escrever uma crônica. A esposa chega. Cansada.


 


- Oi. Como foi seu dia?


 


 - Abafado, suado, trem lotado. Mas, casa arrumada, suco gelado e roupa dobrada.


 


- E o que você tá fazendo agora aí sentado?


 


- Trabalhando.


 


- Mas, já não trabalhou hoje?


 


- Estou aqui "cronicando".


 


- Mas, isso não é trabalho.


 


- Ah não?


 


- Não.


 


- Sei... Então eu posso dizer que aqueles textos que você faz no "seu lazer", que é das 09h às 18h, não é trabalho também?


 


- É diferente.


 


- Ué? Como assim?


 


- Lá é um trabalho remunerado, entendeu? R E M U N E R A D O.


 


- Sabe o que é?


 


- O quê?


 


- Eu gosto de trabalhar de graça. Tipo trabalho voluntário, saca? É bom se sentir útil à sociedade, mesmo que seja um pequeno e restrito grupo.


 


- Ah é?


 


- É. Ou você acha que é gostoso recolher a roupa, estender outra que está na máquina, dobrar a que recolheu, arrumar a cama, lavar louça, secar e guardar, sem receber um mísero realzinho?


 


- Pode escrever. Quer uma tapioca? Eu faço.

    Autor: Ronnie Vitorino