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Minha vida de cachorro

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Ainda pequeno, na minha infantilidade ingênua, tinha muito medo do “melhor amigo” do homem: O cachorro. O medo era tanto, que se eu o avistasse a quilômetros de distância, eu já atravessava a rua e mudava de calçada. Tinha fobia canina. Não importava se era um cachorro grande ou pequeno. Eu, simplesmente, gelava.


 


O cachorro era a minha kriptonita.


 


Quando os ditos cujos eram vira-latas, a coisa apertava mais ainda. Sim, pois esses, que são de uma valentia ainda maior, latiam e me seguiam até a porta de casa, da padaria, do supermercado e até no quinto dos infernos. E esses reproduzem-se à miúde. E como correm. E como latem. E como me davam medo.


 


Eles não entendiam que eu não era São Francisco de Assis!


 


O ápice do meu medo de cachorros aconteceu durante minhas férias de julho, lá nos idos de mil, novecentos e oitenta e alguns, quando passava um final de semana no sítio de uns vizinhos. Lugar bacana a tal cidade de Pirapora do Bom Jesus. E não sei por que, mas caseiros não se contentam em ter um cachorro, mas possuem um verdadeiro canil. E os famigerados viviam com as galinhas, com os porcos, com os bois, atazanando a vida desses animais bucólicos. Pois bem, estava com minha super, ultra, master, Power, bluster bicicleta de última geração: Caloi Extra Light. E numa pedalada e outra, eis que um vira-latinha late. Eu pedalo mais forte. Na sequência, outro late e vem atrás de mim. Eu pedalo mais. Num piscar de olhos, TODOS os cachorros da cidade estão atrás de mim e eu pedalando mais que o Lance Amstrong dopado! Bem no final da ladeira que descia, tinha um lago. O resultado vocês já podem imaginar: Os diletos cachorros pararam de correr no meio da ladeira e eu, que estava no auge dos meus dez anos, não consegui brecar a minha super bicicleta de freio a disco. Ou seja, lá fui eu dar um mergulho no lago de lodo.


 


Enfim...


 


Meus pais nunca quiseram cachorros em casa. Alegavam que dava trabalho, que latiam, que sujavam, que entravam em casa, que eu poderia ficar dentro do tanque de roupa me escondendo dele e blá, blá, blá. Preferiram me dar peixes. Mas esses têm vida útil limitada demais. Sugeri uma tartaruga. Acontece que a bendita vive demais e não seria das melhores heranças a se deixar. Enfim, nunca tive um animal de estimação.


 


Chega um dia que o homem toma uma atitude na vida. E eu tomei a minha: Casei. E, junto com os ingredientes de maquiagem, com as panelas, com o enxoval, veio o Tubias.


 


E o Tubias é um barato. Late à beça. Pula em cima de você. Acaba com minhas bolinhas de tênis. E como nos cheira: Quando saímos e chegamos dá uma fungadinha. É o mordomo da casa quando chegam visitas: Vai lá e dá uma cheiradinha na buzanfa da pessoa. Quer ver se está tudo em ordem, se não vai entrar porcaria em casa.


 


E eu, que sempre tive medo dos cachorros, descobri um amor imenso pelo labrador. Creio que seja por conta da sua cor de whisk. O pequeno estabanado sabe quando vou viajar: Fica me olhando com aquela cara de “vai me deixar cuidando da casa sozinho de novo?”.


 


O tal do Tubias é picareta. Vem com aquele afago dengoso pedindo pra sair sozinho, dar um passeio e ver umas cadelinhas. Além, é claro, de dar uma mijadinha no jardim alheio. Claro que não escapa uma cagadinha também. É safado. E o pior que a vizinhança gosta do danado. Vira e mexe vai alguém no portão de casa dar um ‘oi’ ao Sr. Tubias.


 


Impressionante como esses animaizinhos sabem quando você não está naqueles dias bons e, principalmente, não quer papo com eles. Porém, são insistentes e choram, urram por sua companhia. Aí você vai lá jogar uma bolinha, cansar o cidadão quadrúpede. Ele vem todo sorrateiro esfregar o focinho úmido em você. Pede que se sente e, praticamente, converse com ele sobre o seu dia. E, sem saber como, ele te entende.


 


O tal do labrador, além de amigo que guarda meus segredos mais recônditos, guarda minha casa, é pirado num Rock, não toma da minha cerveja e não canta minha mulher.


 


Além de tudo, é demasiadamente simplório: Não exige uma picanha, afinal sua ração de arroz com vegetais é ótima (já experimentei e, confesso, tem gosto de ração mesmo); gosta de água fresquinha, não exigindo uma cerveja gelada; qualquer jornal para dormir está ótimo, nem precisa ter crônicas do Luís Fernando Veríssimo para ler e; qualquer barulho estranho está sempre alerta, sem nunca ter sido escoteiro.


 


E foi esse labrador devorador de chinelos de oncinhda da minha esposa; esse triturador de sofás e meias; esse louco que pula meio metro do chão ao ouvir o barulho da minha chave achando que vai para rua; esse cão que dá piruetas em torno de si mesmo, na euforia de sair, que acabou com o meu medo canino.


 


Tubias: O labrador que, além de cachorro, é terapeuta ocupacional – Ocupa todo canto vazio da casa e da minha vida.

    Autor: Ronnie Vitorino