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Dia de faxina

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Em todos esses anos levando essa vida de brasileiro, que trabalha cerca de quatro meses como voluntário para o governo, ouvi apenas uma pessoa dizer que adora fazer serviços de casa: Lavar, passar, cozinhar, enfim, dar um trato no lar.


 


Serviço de casa não rende. Você acaba de fazer e já tem coisa suja. É como passar camisa de linho: Você passa de um lado e amassa do outro. Você limpa a casa toda e o cachorro já urinou novamente no quintal limpinho; o marido tomou cerveja e deixou o copo sujo na pia; o filho comeu sua porção de rabanadas e limpou as mãos na camiseta. Depois de tudo limpinho, você vai fazer o almoço e suja aquele mundaréu de louça. É uma batalha em que você não vence nunca!


 


É um serviço pra lá de chato. Eu admiro as faxineiras, as empregadas. Seja pelo serviço que fazem, seja pela força que possuem. É um arrastar o móvel para lá, puxar o balde pra cá, levar o rodo acolá e, não sei se já perceberam, mas sempre estão com um molho de chaves a tiracolo.


 


Além do mais, essas profissionais da limpeza, sempre têm histórias tristes. É o marido que é um encosto, o filho que só dá problemas, a mãe internada, o pai ausente e a nora que é o cão! E, mesmo assim, estão lá no seu gerundismo de diaristas: Cantando, assobiando, enxaguando o pano de chão e, ainda bem, limpando.


 


Mas, essas guerreiras têm suas vaidades, suas idiossincrasias. E mesmo ganhando muito abaixo do que realmente merecem e trabalham, dão um jeitinho brasileiro de se divertir. Noutro dia, a dona Lúcia, moça que faz o serviço braçal aqui em casa, começou com um papo desses:


 


- Comprei uma geladeira, seu Ronnie.


 


- Jura? Que bacana.


 


- Sim. Geladeira de rico. Como a sua.


 


- Mas eu não sou rico. E minha geladeira é super simples. Faz o básico, que é gelar as minhas cervejas.


 


- Ah, mas para quem usava geladeira de isopor, como eu, foi um enorme avanço, seu Ronnie.


 


- Como é que é? Geladeira de isopor? Você gastava mais de gelo do que gastará de energia.


 


- Pior não é isso, seu Ronnie. O traste do meu marido pegava o gelo para colocar na bebida dele. Tive que trocar por gelo seco. Aí foi que piorou tudo de vez.


 


- Por que?


 


- Oras, porque ele, já de pilequinho, dizia que o isopor estava pegando fogo!


 


- É... Complicado.


 


- Mas agora meus problemas estão resolvidos. Com essa geladeira de rico eu vou saber quando alguém abrir a bendita.


 


- Como assim?


 


- É que ela apita, seu Ronnie. Ela avisa quando alguém está tentando assaltar na madrugada.


 


- Como é?!


 


- Ai seu Ronnie, a sua também faz isso.


 


- Faz? Ela apita quando tentam assaltá-la? Vamos levar pro Congresso Nacional então!


 


- Não é assim. São para assaltos de comida.


 


- Está difícil de entender, juro.


 


- Pôxa, o senhor é tão inteligente, escreve essas coisas bacanas aí o dia todo e não sabe dessas tecnologias? Precisa ler os jornais, ver mais o repórter e mesnos novelas.


 


- Tá. E como é que funciona isso?


 


- Ué, quando alguém abre a geladeira, ela começa a fazer “pi”.


 


- Fazer “pi”?


 


- Isso!


 


- Não dona Lúcia...


 


- É sim! Eu já peguei o Reginaldo com a boca na botija! Quer dizer, com a boca no copo e a geladeira escancarada. Essas geladeiras de rico são dedo-duras!


 


- Ah... Agora entendi! Não é que ela apita quando alguém abre para ‘roubar’ algo. É que, quando ela fica aberta durante um tempo, começa a apitar para que você feche, senão, gasta mais energia.


 


- E é por isso, é?


 


- Sim.


 


- Pôxa...


 


O olhar de decepção foi nítido. Tão triste quanto contar para uma criança que Papai Noel não existe.


 


- Olha, seu Ronnie, eu acho então que esse sistema deveria existir para tudo. Saiu do quarto e deixou a luz ligada, apita. Esqueceu o micro-ondas aberto, apita.


 


- Mas aí a casa seria uma sinfonia.


 


- Seria o quê?


 


- Deixa pra lá.


 


- O senhor e essas palavras complicadas.


 


- Dona Lúcia, se for assim, vou colocar uns alarmes nos produtos de limpeza.


 


- O senhor tá querendo dizer que eu estou roubando a sua casa?


 


- Não, de maneira nenhuma. É que o consumo de produto de limpeza aqui é alto pacas para uma casa pequena.


 


- Olha aqui, seu Ronnie: Eu trabalho, dou um duro danado aqui. Faço até bolo de fubá para o senhor tomar com seu café da tarde. E agora vem com essas historinhas? Tá me estranhando?


 


- Não quis lhe ofender, juro. Desculpe-me.


 


- Mas me ofendeu! Acha que sou uma ladra?


 


- Não, não! Longe disso. É que toda semana comprar cinco litros de cândida não é normal.


 


- É porque o senhor não faz limpeza de casa, seu Ronnie.


 


- Dona Lúcia, desculpe-me, mas a senhora está levando cândida para o seu marido beber?

    Autor: Ronnie Vitorino