Cronistas

Sou psicanalista por opção, mãe por vocação e ultimamente tenho passado o tempo rabiscando em voz alta.

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Sentimentos ao Elefante

15/05 de 2013 às 06:35


A lista é interminável de bens que nos fazem felizes por ocasiões inteiras ou que tem sua estima reservada em lembranças bem vividas do passado. Para Agripina mãe de Geórgia a questão não era diferente.

Geórgia, em domingos alternados, fazia de seu culto sacro ir à casa antiquada de sua mãe almoçar. A homilia prosaica era levar todas as vezes um prato preferível ou uma notícia inesperada para o idoso coração da maternidade. O hábito surgiu ainda na juventude quando abandonou a casa de La madre aos 17 anos de idade, isso porque, ambas discordavam sobre a necessidade de trabalho para uma menina em que a maior preocupação dos pais era conseguir um bom partido a fim de se casar.

Agripina era uma mulher ocupada, modista não tinha tempo para outros assuntos que não o vestido que sua clientela iria usar no baile de sexta-feira à noite e quais as melhores camisas para seu marido se apresentar diante de seus alunos na academia de filosofia. Esse comportamento implacável da mulher distanciou por muito tempo o amor de sua filha e a tornou abjeta de suas escolhas, fossem elas a curto ou a longo prazo, mantendo como único elo um encontro com tragédias intermináveis de finais de semana por outros 10 anos.

No calendário, ambas iriam completar datas especiais, a primeira retratava o ano de divórcio de Geórgia que com 20 anos se casara e com 21 terminara na mesma ocasião, a segunda, aniversário de décimo ano de encontros com repulsa pelas protagonistas do evento. O pai, como sempre, permanecia inato diante do fogo cruzado das inimigas mortais. O que deixava transparecer e que certamente comprovava a razão do pai, era que aquele fogo cruzado era necessário para mantê-las vivas, o evento era quase que como uma simbiose marcante que tomava conta das duas sem o qual não conseguiriam viver por muito tempo .Provavelmente fosse o único trecho do cordão umbilical que não fora solto com a separação. Ao que tudo indicava, era um amor psicótico ou psicopático em que as duas sentiam-se satisfeitas com o teatro de se encarar com ódio e rancor.

Naquela sexta, Geórgia chegou em casa, retirou os sapatos e foi direto para o quarto conferir se tudo estava preparado. Sem esperar, a campainha da casa tocou e ao abrir a porta recebeu a novidade daquele final de semana. Não sabia a novidade o que a esperava. Sábado foi ao cabeleireiro e aproveitou para comprar o frango que levaria para o suplício em família do dia seguinte.

Domingo, bem cedinho, ligou a caminhonete e foi até o apartamento de Astolfo, o novo pretendente ao cargo de genro de Agripina. Enfim, chegou ao tão esperado almoço, Rua Comendador Saraiva, 758. Colocaram a mesa, fizeram as apresentações e tudo parecia correr bem. O esposo de Agripina ficou encantado e seguiu discutindo sobre a tórrida coluna de esporte com seu novo favorito ao posto de genro. As mulheres da casa colocaram a mesa e instantaneamente discorreram sobre as notícias da vizinhança.

- Amor pode me trazer mais um pouco de cerveja? Pensando melhor acho que vou buscar…

Aquele instante não precisa acontecer.

Astolfo se levantou e descuidoso esbarrou por acidente no elefante da mesinha de centro, que em um ato suicida deixou cair no chão. À mente de Agripina inúmeras lembranças sortiram o seu ser.

Era inverno de 1997 quando Sueli visitou sua irmã pela última vez antes de só se comunicarem por cartas. Vindo de sua última viajem e se preparando para uma definitiva à Irlanda, comprou no ínterim um elefante de todo decorado com pedras reluzentes. O ciúme da presenteada era tão grande pelo objeto que certa vez ao simples movimento do gato por sobre à mesinha de centro culminou em ser lançado a uma altura de 23 andares, Infelizmente naquela ocasião o gato não caiu em pé. Agripina pensou por inúmeras vezes, até cogitou conseguir uma companhia para o fantinho (apelido do elefante), o que provavelmente diminuiria a sua tensão de ódio por qualquer coisa que se aproximasse dele, mas nunca conseguiu um à altura. Essa, pelo menos, era a desculpa.

O almoço acabou no mesmo instante em que começou a ser servido. A colocação que pairou no ar feita pela dona da casa sobre o acidente foi imediata.

- Ou ele ou meu elefante, você escolhe - apontando seu dedo atrofiado para a filha como em um ato inquisidor.

A pergunta foi unânime e sem rateios, já que o elefante era representante sutil dela, ou seja, o que fizessem ao fantinho atacariam violentamente ao coração da velha senhora. Troca de partidos feito após discorrerem o imenso dicionário de insultos.

Geórgia tomou a decisão. Colocou o namorado no carro e o despachou na porta de casa, o namoro acabou ali. A decisão, por mais que não parecesse sensata, tinha seu fundo de sentido. A escolha era óbvia, não se tratava de optar pelo namoro ou pelo elefante quebrado, mas era um épico, quase uma epopeia grega, manter o conflito secular dos almoços quinzenais aceso. A conclusão era clara, não se tratava de ódio, mas de um amor mal explicado e que se traduzia através da antipatia entre Agripina e Geórgia enquanto serviam o macarrão.

No outro domingo Geórgia estava lá, pronta para outra atuação.

- Cheguei, adivinhem quem eu trouxe? Renato, o meu gatinho amado, e meu outro amado Rogério, meu novo namorado. Já consertaram o elefante?


 


Felipe Pinheiro, 18 anos, estudante - Curitiba/PR

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