Cronistas
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Traumas

13/03 de 2012 às 04:24

Galdino era um cara simpático. Mas ai de quem experimentasse dizer isso a ele. Tinha trauma. Achava que “simpático” é uma forma de sintetizar “gente-boa-mas-feio-pra-cacete”. Descobri isso e outras coisas em um almoço que fiz lá em casa. Tudo pronto, mesa posta, quando a Tonha chegou com um prato sofisticado, feito com peixe. Ao ver o menu principal, Galdino olhou e disse:

– Não como peixe.
– Não gosta?
– Gostar eu gosto. É que eu tenho trauma. Me engasguei com uma espinha quando tinha 8 anos.

Não lembrava desse trauma do Galdino. E olha que a gente se conhecia desde pequeno. Nosso primeiro contato foi num passeio da escola ao What’s Wet World Wild Wide, um parque aquático aqui de Nonstop Place. Ele entrou na piscina de ondas gigantes, afundou, levantou o braço e lá fui eu salvar o Galdino. Ficou algumas semanas sem tomar banho por conta do trauma e nunca mais entrou em piscina, praia, cachoeira, córrego ou piscininha de bebê.

Se não fosse por esse evento, diria que a gente era amigo até debaixo d’água. Galdino sempre estava lá em casa ou eu na casa dele. Às vezes, eu até dormia lá. Era bom por que eu sempre ficava com a parte de cima no beliche. A mãe dele contou que, num dia, Galdino caiu de lá de cima e passou a dormir na cama de baixo. Coisa boa dormir em cima sem precisar ficar tirando par-ou-ímpar.

Crescemos e nos casamos. Mas calma aí. Cada um com a sua respectiva mulher, é claro. Primeiro foi a minha vez: cerimônia, festa e lua-de-mel nos Lençóis Maranhenses. Quando voltamos, fomos mostrar as fotos para o Galdino. Ele e sua mulher também estavam fazendo planos para a viajar após o casamento.

– Olha essas dunas, amor!
– Sei. Só tem duna?
– Não! Entre uma e outra tem umas lagoas lindas!
– Lagoa? Água?
– É! Olha essa daqui.
– Parece até que você não me conhece, Lorena.
– Ih… é, não vai dar.
– Então, vamos pra Canela!
– No Sul?
– Isso.
– Pegar avião?
– Isso.
– Não. Tenho trauma de avião. Sempre enjôo.

Nem preciso dizer que foi Lorena que se enjoou rápido de Galdino e ele nunca mais se casou. Acabou pegando trauma de alianças e só foi voltar a entrar na igreja hoje, no seu próprio velório.

– E como foi que ele morreu?
– Eu insisti para que ele comesse o tal peixe. Disse que não tinha espinha.
– E tinha?
– Tinha.
– Ah, coitado.
– Pois é. Aprendi que nunca se pode fazer pouco caso dos traumas dos outros.
– É verdade. Ei, Olha ali! Os amigos dele chegaram com uma bandeira do time do Galdino. Disseram que vão colocar em cima do caixão em homenagem.
– Ãh!? A bandeira do Botafogo?
– É.
– Ô, pessoal! Vamo tirá isso daê!
– Por quê?
– Desde que o Botafogo foi pra segundona que ele pegou um trauma danado de futebol.

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