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O bêbado sincero

16/07 d 2013 as 17:15

- Um minutinho da sua atenção Dotô…

Tenho que admitir que me constrangi com a abordagem, poucas quadras após sair de uma inocente festa junina. Talvez por ser quase 11 da noite de um sábado, numa rua deserta, eu com o filho de 2 anos no colo e a mulher grávida ao lado. Talvez pela intimidação psicológica de uma abordagem no breu da rua mal iluminada. Talvez pela paranóia coletiva em que mergulhamos com medo da violência urbana. Ou talvez por já prever o óbvio desfecho arrecadatório daquela lenga lenga introdutória.

De todo modo, o sujeito acabou engatando seu discurso cambaleante sem que eu tivesse como me desvencilhar.

- Vou ser sincero pro senhô. Eu podia dizer que eu tô com fome, que eu tô precisando comprar remédio, ou que preciso pegar um ônibus, mas seria mentira, dotô. O que eu quero mesmo é comprar pinga. Então eu to sendo sincero. O senhô podia me dar algum dinheiro pr’eu ir pro bar?

Confesso que desmoronei. Estava preparado para debater a respeito de qualquer assunto, desmontar argumentos frágeis, discutir o comportamento do Bóson de Higgs ou qual deveria ser a destinação dos royalties do pré sal. Ou então sacar uma moeda de 1 real do bolso e acabar laconicamente com o imbróglio, como as vezes a gente faz, mais por comodismo e intimidação do que por caridade, já que os especialistas dizem que assim atrapalhamos mais que ajudamos. Mas não tinha noção do que fazer naquela situação.

Premiar a sinceridade incentivando o vício que consumia aquela pobre alma?

Acabei não dando o dinheiro. Primeiro porque só tinha uma cédula de 50 reais, quantia que convertida em pinga de quinta seria um passaporte imediato para o coma alcoólico. Segundo, porque me sentiria mal consentindo assim tão cinicamente com a derrocada do sujeito. Mas juro que simpatizei com a incomum atitude de sinceridade, em sua integridade ébria. Etilicamente ético.

Pra finalizar, mesmo sem receber nenhum vintém, o bebum agradeceu a atenção da família e se despediu com um polido ‘boa noite’. Um gentleman na elegância trôpega de seus trapos.

E então refleti o quão carente andamos de sinceridade no mundo atual.

O x-burguer real é sempre menos suculento que o do cartaz. As fotos ultra produzidas do perfil do Facebook são tão lindas que quase não nos reconhecemos nelas. E vamos construindo nossos disfarces para sermos cada vez menos quem realmente somos. Cílios postiços, peitos artificiais, testas de botox e bíceps anabolizados. Mentira em fartas doses.

Uma das coisas que têm me incomodado são as entrevistas de emprego que por força da minha atuação às vezes preciso conduzir. Os candidatos estão muito mais preparados para a entrevista do que para a função. Uma das perguntas que eu sempre fazia, mas desisti antes que a úlcera consumisse este maltratado corpo, era a de defeitos e qualidades.

- Qual é a sua principal qualidade?

E vomitam uma batelada infindável de auto elogios. Trabalho em equipe, sou pró-ativo, gosto de desafios, de adquirir novos conhecimentos, blablabla, pipipi, o que me mostra que foco e concisão certamente não são qualidades integrantes dessa lista.

Mas o toque final de crueldade vem na hora em que pergunto qual o defeito, quando os entrevistados me respondem com mais qualidades:

- Ah, meu defeito é ser perfeccionista…

(Jura? E porque não corrigiu a palavra “proficional” logo na primeira página do seu currículo?)

- Olha, o meu defeito é que eu gosto de tudo bem organizadinho…

(Puxa, que pena, esta vaga é só para quem gosta de tudo bem bagunçadinho…)

Está faltando conteúdo pra encher tanta embalagem vazia. Numa sociedade tão orientada para as aparências e para o exibicionismo acéfalo, não espanta que tenhamos tanta dificuldade em encontrar a coragem de nos assumir como somos, demasiadamente humanos, com nossos defeitos e qualidades que nos fazem únicos.

Uma sociedade em que somente o bêbado é sóbrio o suficiente para falar a verdade é mesmo um grande porre.


 


Alexandre Correa Lima, 42 anos, Empresário - Cruzeiro/SP

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