Cronistas
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A corrente

13/03 de 2012 às 00:06

Ela tinha uma correntinha dourada com três pingentinhos que representava seus filhos: duas meninas e um menino. Ela gostava de brincar com esta, colocando-a no indicador e girando-a rapidamente, fazendo assim o tempo passar naquela noite. Era sua única riqueza material, de ouro de verdade e tinha um valor sentimental enorme. Isso explica o seu desespero quando o fecho da corrente se arebentou e tudo saiu voando para o meio da rua. Ela ia para o meio da rua procurar os seus pingentes, mas um carro passou a milhão e ela teve que se desviar para não ser atropelada.

Naquele carro um homem levava sua mãe às pressas para o hospital, pois a pobre velhinha havia se acidentado em casa ao tentar alcançar o pote de arroz que ficava na última pratileira do armário. Ela tinha uma escadinha que usava para alcançar os lugares mais altos, mas como esta estava bamba, resolveu usar uma cadeira. Acabou perdendo o equilíbrio logo naquele dia em que ela faria o tão prometido risoto para sua nova vizinha, um sinal de cordialidade comum naquela vila tão tranquila onde eles moravam.

A nova vizinha havia pensado em comprar um vinho para acompanhar a janta, mas acabou esquecendo, pois no supermercado ela esbarrou no ex-namorado, que trabalhava como repositor naquela loja. Surpresos, um com o outro, conversaram sobre quanto tempo não se viam, sobre as circunstâncias que causaram a separação do casal e como a transa costumava ser boa naquela época. O papo esquentou e eles resolveram esfriá-la no refrigerador da loja; finalmente uma velha fantasia dele se tornava realidade.

Ao chegar em casa naquela noite, ele resolveu que aquela era a gota d’água que o faria separar da atual mulher, pois já não a amava mais e o sexo costumava ser muito melhor - hoje ele teve a prova final disso. Depois de tanto excomungar Deus por não conseguir ter um filho, agora ele O agradecia por não ter um fardo que o obrigasse a manter um relacionamento condenado ao fracasso. Abriu a porta e leu a sua correspondência em cima da mesa. Entre elas, havia um bilhete que o fez rir, pois sua mulher tinha saído de casa, convencida a viver com o amante, de quem ela afirmava estar grávida. O que era mentira: apenas uma desculpa para ela poder ser aceita naquela outra cidade.

A menina nunca chegou a conhecer o verdadeiro pai; achava que era filha do padrasto, que havia deixado sua mãe um pouco depois de ela nascer. E assim cresceu, sem nenhuma figura paterna. Porém, ela nunca sentiu a falta de nenhum deles, pois a mãe a amava muito. Demais, até. Tanto que quando descobriu que sua única criança havia perdido sua inocência para o padre da paróquia, não hesitou e matou o depravado com dois tiros de carabina.

Triste quando um paga pelo pecado de dois. E tristeza maior morrer por puro amor, cujo único erro era ser recíproco. O padre não experimentava amor como aquele já há 15 anos, quando em um momento único, conheceu uma moça que o deixou terrivelmente apaixonado. Porém, a Madre Maria Antônia não podia corresponder a esse amor tão proibido e por muito tempo ele sempre ficou sonhando com aquele sentimento para com aquela bela mulher.

Naquela época a Madre era uma garota de 23 anos muito bonita. Era bem quista pelos pais cujos filhos catequizava e a criançada sempre arranjava um regalo para a professora preferida. Ganhava mimos das meninas e dos meninos, tais como lembrancinhas artesanais feitas de madeira ou pano, incensos que ela jogava fora pois não gostava do cheiro, maçãs e, uma vez, teve que recusar o presente de um garoto cujos olhos brilhavam em sua aula. Provavelmente ele teria pagado caro e ela não poderia aceitar.

O garoto que adorava a Tia Madre ficou chateado, mas terminou por levar seu presente para casa, deixando-o em cima da mesa. O pai viu e perguntou onde ele tinha conseguido aquele objeto reluzente. Recebeu uma resposta murmurada que fora achado na rua e que podia ficar para ele. O pai então colocou-o na carteira, de onde tirou somente à noite, quando foi pagar a prostituta com quem ele costumava dormir há quase um ano.

Ela recebeu o presente no maior bom grado e agradeceu chorando pois ela justamente havia perdido um pingente de menina de sua corrente na noite anterior.

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