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PAS

19/04 de 2013 às 05:41

Para quem não sem lembra, em 1996, após muita confusão, o então Prefeito Paulo Maluf conseguiu implantar em São Paulo o PAS - Plano de Atendimento a Saúde.


 


E acreditem se quiser: durante 18 meses trabalhei lá.


 


O PAS consistia em contratar profissionais através de cooperativas, com salários melhores que o dos servidores e, com a promessa de um melhor atendimento. Os servidores que quisessem trabalhar como cooperados, deveriam se licenciar da prefeitura - perdendo assim tempo de serviço para aposentadoria e os benefícios de servidores - para continuar na unidade em que estivessem locados.


 


Quem não concordasse era transferido para unidades que ainda precisavam de servidores. Apesar de grande parte aderir ao sistema de cooperativas, sobraram vagas para não servidores e graças a um contato que trabalhava como Coordenador consegui o emprego no Pronto Socorro Municipal da Lapa.


 


Realmente o salário era melhor, desde os chamados ATA´s (Auxiliares Técnicos Administrativos), que trabalhavam na recepção (minha função) até os médicos.


 


Para ter-se uma ideia, meu salário era aproximadamente o triplo do valor que eu pagava de faculdade, motivo pelo qual não pensei duas vezes em aceitar.


 


O atendimento realmente era bom: Não faltavam médicos (pelo menos até o fim de 1997, enquanto estive lá), mas o que foi feito com o dinheiro público enquanto durou esse sistema (pouco mais de quatro anos, durante o fim do governo de Maluf e na gestão de Celso Pitta) é que não sabemos, e não vou comentar sobre isso aqui.


 


De importante mesmo foi minha experiência trabalhando no Pronto Socorro.


 


Nesse tempo percebi que no Brasil existem vários dialetos, pois quando os pacientes chegavam com suas intermináveis doenças, compreender o que eles diziam não era tarefa fácil. Com o tempo, porém, até tupi-guarani eu compreendia.


 


Computador? Não tinha. Preenchíamos as fichas a caneta. Na primeira meia hora até que a letra saía bonitinha. Depois de três horas... Certa vez, para se ter uma idéia, fui chamado na minha folga para interpretar o que estava escrito no endereço de um paciente que havia chegado sozinho e morreu. Não consegui. Graças à competência do Serviço Social conseguiram o endereço, mas se dependesse do hieróglifo que foi escrito por mim...


 


O dia a dia é terrível, pois é desgraça a toda hora. É preciso desencanar, tentar se divertir, rir da desgraça alheia. É bom pra passar o tempo. É bom pra não querer pedir demissão. É bom pra conseguir pagar a faculdade.


 


Começarei pela parte boa. Eu adorava os idosos e sempre tentava animá-los. Toda vez que levava um idoso ao consultório pra ser atendido mencionava que a ficha estava preenchida errada porque na idade, por exemplo, estava escrito 70 anos. Quando confirmavam que estava certo, eu dizia que não parecia e que eu queria a fórmula pra chegar naquela idade com a aparência deles. Acho que até melhoravam um pouco antes da consulta.


 


Mas eu me divertia mesmo com os pacientes que chegavam com hemorróidas...


 


Por esse motivo, comecei pela parte boa, porque sei que agora muitos me odiarão, principalmente os que já sofreram com isso.


 


Uma pessoa para ir a um pronto socorro municipal com hemorróidas, é porque a casa caiu. A situação chegou a uma proporção que a pessoa mal consegue andar. E parece que essas pessoas simpatizavam comigo e sempre caíam no meu guichê. Nos 10 metros que havia entre a porta do PS e onde eu ficava, onde o paciente demorava uns dois minutos andando vagarosamente e com as pernas abertas, eles sempre acabavam comigo, inclusive as mulheres.


 


A primeira pergunta que tínhamos que fazer era o que a pessoa tinha. Nessa situação o paciente sussura: “Hemorróidas”. Aí chegava minha hora. Eu repetia discretamente: “HEMORRÓIDAS?” Maldade né? Eu sei, eu sei. No PS isso ficou famoso, porque enquanto os outros funcionários seguravam a risada e alguns até saíam da recepção pra rir, eu mantinha a seriedade olhando calmamente para um diminuto paciente, que após esse momento era observado por todos na recepção que nunca estava vazia. Nesse momento todos olhavam principalmente para a bunda da pessoa, que não sabia se corria (aliás, não seria possível correr naquela situação) ou chorava.


 


Pra amenizar (não sei se me perdoarão agora) ao menos eu passava essas pessoas na frente para atendimento, mas não acho que irei para o céu por isso. Alias sempre achei que um dia por castigo eu teria hemorróidas, mas “ainda” não aconteceu.


 


Outro ponto interessante do PS, que era chamado de Unidade Light, pois tinha “apenas” 400 pacientes por dia em média, era o fato de ser referência de Psiquiatria das regiões do Butantã e Lapa. Resumindo, quem morava nessas duas regiões e necessitava de internação psiquiátrica, precisava passar por lá.


 


Entre algumas passagens vi uma mulher chegar algemada e quebrar as algemas e ajudei (apesar de não ser minha função) algumas vezes a amarrar pacientes nada calminhos na cama.


 


Mas o evento que mais me marcou foi com uma paciente, que pelo me lembro se chamava Maria. Era uma mulher idosa, doidinha, doidinha, coitada. Não era violenta, motivo pelo qual não queríamos interná-la no primeiro hospital psiquiátrico que tivesse vaga. Havia apenas um hospital muito bom e que era muito difícil achar vaga, mas pra Dona Maria, apesar de teoricamente não ser permitido aos pacientes ficar mais de 48 horas no PS, esperamos algumas semanas até finalmente conseguirmos a internação.


 


No momento da remoção, porém, Dona Maria empacou e nada a fazia sair do quarto. Ela adorava dançar e sempre me chamava pra acompanhá-la em suas danças. Eu nunca ia, mas sempre fazia menção de dançar com ela.


 


Usei então minha criatividade. Convidei-a então pra dançar e fomos “bailando” do quarto até a ambulância (aproximadamente 20 metros) com funcionários e pacientes olhando e rindo. Ela estava contente e entrou tranquilinha no carro. Esse momento foi especial e engraçado.


 


Não foram 18 meses fáceis, mas foram inesquecíveis. Uma experiência que se não foi boa profissionalmente, foi ótima como experiência de vida. Tenho muito mais histórias pra contar, umas boas outras nem tanto.


 


Pra encerrar, vou contar a pior maldade que fiz enquanto trabalhei lá e essa será sem perdão tenho quase certeza: pra manter meu emprego, votei em Celso Pitta.


 


Daniel Lamucci dos Santos, tem 39 anos é Administrador e mora São Paulo/SP.

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