Sábado, 10 de Janeiro de 2004
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Traição ou Infidelidade?


Contratado pela Srtª. Núbia com 24 anos, estava completando oito meses de casada com Ricardo de 28 anos; um casal jovem e bonito, para todos aparentava um casal feliz, mas a realidade era outra. Ela, uma moça muito desconfiada, me procurou para tirar algumas dúvidas com relação ao relacionamento do casal; como de praxe o encontro no escritório é fundamental para que se possa ter privacidade; marcamos um horário e assim foi feito.

Logo antes mesmo da hora marcada Núbia já estava na sala da recepção, pude vê-la através da câmera e como desde o início eu já sentenciava, afirmei em pensamento; ela está com um problema e tanto, assim que Núbia adentrou a minha sala, pude perceber que estava mais tranqüila por estar ali pronta para resolver o problema que para mim ainda era apenas especulação; quando começamos a consulta Núbia se abriu e contou o que de fato a perturbava, pouco menos de meia hora de conversa eu já havia chegado à conclusão, mas seria antiético falar antes de realizar as diligências.

Perguntado se já havia alguma suspeita, ela me afirmou que não, disse que o esposo estava completamente mudado de uns dias pra cá o que a levou a suspeitar que ele poderia está tendo um caso. Não possuíam muitos amigos, moravam há pouco tempo em Brasília vieram de São Paulo, ela o esposo e a irmã mais nova de dezenove anos, moravam todos no mesmo apartamento.

Quando Aline soube que Núbia viria morar em Brasília ela a Aline gostou da idéia e então cogitou a hipótese de morarem juntos; Aline havia passado em um concurso público em data que antecederam a vinda da irmã para Brasília e para não morar sozinha achava por bem morar com Núbia e o Ricardo. Não viram nada demais em a irmã ir morar com eles, ela passaria a maior parte do tempo estudando, pouco ficaria em casa pensavam, mas quando começaram a conviverem juntos, perceberam que não foi uma boa idéia. Afinal recém casados precisavam de liberdade, e de certa forma a presença da irmã estava tirando a liberdade do casal. Para Núbia a irmã era uma moça inocente, e nem passava pela sua cabeça o que a irmã seria capaz de fazer. Não passou muito tempo Aline começou a namorar Aroldo ela o teria conhecido em seu cursinho, saía quase todos os dias e voltava sempre tarde, até que um dia Ricardo demonstrou sua preocupação para com Aline.

Falou a que não era seguro ela ficar a andar tarde da noite por aí. Diante da constante preocupação de Ricardo Aline achou melhor evitar chegar tarde em casa.

Ricardo ainda assim não estava satisfeito com as saídas da cunhada, começou a colocar defeito no namorado. Falava que ele era feio e velho, e que Aline conseguiria alguém melhor. Núbia não achou nada demais a preocupação do Ricardo para com Aline, sendo que ela estava sob responsabilidade dos dois, para Núbia a preocupação de Ricardo era normal. Mas para a Aline não. Ela achava que Ricardo estava com ciúmes isso sim. Foram pouquíssimas vezes que o namorado de Aline subira ao apartamento, mas o estranho é que o Ricardo praticamente ficava escondido no quarto, evitava ao máximo qualquer contato com o namorado de Aline. Sempre com a mesma desculpa de que não ia com a cara do Aroldo. Elas perguntavam o porquê, mas ele não lhes respondia.

Eu imaginei que Ricardo poderia estar tendo um caso Aline irmã de sua esposa, não lhe falei nada apenas pensei. Não demorou muito, dois dias e pronto, flagrei o mocinho entrando em um motel da cidade com a amante; o que me surpreendeu foi ele estar traindo Núbia em pouco tempo de casado, ela uma mulher muito bonita e jovem, tinha tudo que um homem procura em uma mulher, sensualidade, charme, inteligente e supostamente fiel. Neste momento pensei em voz alta: O que levaria ele trair aquela linda mulher. Descobrimos também que a amante era nada mais nada menos que filha de Aroldo. Talvez por isso ele teria feito de tudo para acabar com o namoro de Aline que provavelmente poderia vir a tona com as idas e vindas de Aroldo em sua casa.

Este caso serviu-me de aprendizado, foi através dessa investigação que comecei a ir mais a fundo nas investigações, muitos imaginam que a investigação se resume apenas na apuração dos fatos, com acompanhamento e campanas, mas não, a investigação começa desde o primeiro contato com o cliente, seja por telefone ou pessoalmente, essa é uma das técnicas que desenvolvi ao logo do meu trabalho e com elas consegui resolver alguns caso sem antes mesmo sair atrás da pessoa a ser investigado, o que significa que só de ouvir o depoimento do cliente já deduzi em algumas vezes o que se passava. O poder da dedução é fundamental em qualquer caso a ser investigado, e assim fui buscando o aperfeiçoamento da técnica por mim desenvolvida.

Eu jamais pensei que um caso conjugal seria de tamanha responsabilidade; quando fui entregar o resultado da investigação que na época nem imaginava o tamanho da responsabilidade que tinha em minhas mãos, apenas entreguei a fita de vídeo e o relatório e disse: é ele estava mesmo com outra. Para mim até aquele momento investigação conjugal não significava absolutamente nada, eu pensava que poderia tratar como qualquer outro caso. Mas não era, eu estava lidando com a coisa mais valiosa da vida humana, o sentimento e o amor que em tese é a base para a instituição familiar. E eu nem imaginava que naquele exato momento eu estava praticamente pondo um ponto final em um relacionamento. Caberia a ela a decisão de continuar ou não com o casamento que para mim já havia fracassado. Lembro que Núbia recebeu o material sem falar uma só palavra e saiu visivelmente desapontada e abalada pela notícia que acabara de receber, após alguns meses ela me liga e marca um horário novamente para conversarmos sobre a investigação feita há meses atrás, não houve qualquer contestação por sua parte, apenas ela queria fazer algumas colocações que ela julgou necessário para o meu crescimento e enriquecimento profissional.

Núbia de posse de uma carta começou a ler em voz alta, onde falou o que deveria falar, e ao final disse que eu deveria saber a importância de uma investigação como tal, pois eu estava brincando de deus onde eu tinha o poder de decisão sobre a vida de um casal. Essas palavras entraram no meu coração e serviu-me de lição e uma lição de vida. Comecei a evitar por alguns meses casos conjugais, achava eu que não estava preparado para lidar com tal situação. Talvez eu estivesse equivocado, o que eu deveria fazer ao certo? Pensei em deixar a profissão de lado, ou trabalhar apenas com casos de pessoas desaparecidas, investigar fraudes contra seguradoras, enfim pensei em tudo. As palavras de Núbia não me saiam da cabeça, toda vez que chegava um pedido de investigação conjugal eu pensava nas conseqüências e isso me torturava de alguma forma. Eu precisava fazer alguma coisa para tentar me redimir diante de Núbia; pensei em pedir desculpas, mas tinha medo de não ser aceita e piorar ainda mais a minha situação diante a ela, eu não sabia o que fazer, apenas tinha a certeza que eu precisava fazer algo.

Enfim tomei coragem e liguei para ela para me justificar, Núbia então sorrindo falou-me: Lima você estava certo desde o início eu que estava errada, pois eu estava totalmente envolvida com ele, e quando se ama alguém e difícil ouvir as acusações assim na "bucha", seria diferente se fosse apenas boatos ou fofocas, mas quando se tem a prova em mãos dói muito; eu te peço desculpas por ter te falado aquele monte de coisa. Para mim foi a melhor coisa que eu poderia ouvir; então pude entender que o amor é capaz de absorver determinados casos.

A partir daí pude ver o quanto realmente é importante a investigação. E dali em diante eu busquei me especializar ainda mais, deixando de fora o meu lado sentimental, pois este as vezes me atrapalhava, eu cheguei até a ficar com pena de algumas esposas traídas, somente eu sabia o quanto eu sofria a cada entrega de relatório, sempre achava que estava cometendo uma injustiça, na minha cabeça todos os homens eram infiéis, mas não todos por incrível que pareça; consegui inocentar alguns esposos ou noivos de estarem traindo.

Com o tempo eu fui aprendendo a lidar com a situação e as coisas foram ficando normais. Não foi uma tarefa fácil demorou algum tempo. Aprendi que detetive jamais pode se deixar envolver com sentimentos, e que a traição está onde menos se espera, ela as vezes está dentro de casa, na casa ao lado, no trabalho, na escola, na faculdade, no cursinho enfim... Está em quase todos os lugares. Conviver com a desconfiança é outra tarefa ainda mais difícil que se possa imaginar, eu ainda acho que o possível remédio para a desconfiança é a busca incessante da verdade; pode ser que estejamos errados ou não, a surpresa pode ser bem maior da que estávamos preparados para receber, é relativo, em alguns casos o cliente procura até ajuda profissional como terapeutas e psicólogos para superar o problema. Não basta apenas ter coragem de contratar detetive para saber da verdade, tem que estar pronto para enfrentar a realidade que estará por vim.

Edilmar Lima, 28 anos, Detetive - Brasília/DF

 
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