O ditado não era bem esse, mas tudo bem. Hoje em dia está tudo às avessas mesmo. Mas serve. Acho mesmo que são as manias que possuem os seus loucos e não o contrário.
E eu conheci alguns malucos, alguns de pedra, outros nem tanto, mas todos malucos apaixonados por carros de corrida. E esses malucos resolveram se encontrar no teatro mor desta mania – Autódromo de Interlagos.
E eu estava lá. Não que eu seja maluco, longe disso, mas fui. Fomos torcer, vejam só, por outro maluco que resolveu ser corredor de automóvel. Sim, corredor de automóvel, como se dizia antigamente. Um sujeito que corre com um DKW não é piloto, é corredor de automóvel mesmo.
Estávamos todos credenciados, com o certificado de maluco pendurado no pescoço, o que nos dava direito a passear pelo palco, coxia, platéia, mezanino e camarins. No caso, arquibancada, boxes, paddock, pista, sala de imprensa, essas coisas. Prato cheio para malucos de carteirinha.
Formamos uma torcida! Ou melhor, os malucos formaram uma torcida. Uma torcida de uns quatrocentos malucos para ver carros d’antanho se esgoelar por retas e curvas. Mas para eles não são apenas retas e curvas, mas sim o “S do Senna”, a “Curva do Sol”, a “Reta Oposta”, a “Curva do Lago”, o “Laranjinha”, o “Pinheirinho”, o “Bico de Pato”, o “Mergulho”, a “Junção” e a “Reta do Boxes”. Assim, nessa seqüência. Quase como um rezar de terço.
E os malucos se reuniam em rodas. Afinal de contas, roda é coisa de carro. Eu olhava para um lado e via alguns malucos grisalhos e outros imberbes ouvirem atentamente o grande Bird Clemente contando as suas histórias daquelas retas e curvas. Olhava para outro lado e via malucos imberbes e outros grisalhos atentos às memórias de Jan Balder. Em outro canto Chiquinho Lameirão autografava uma réplica em miniatura de seu carro de corrida da década de... 60.
Outros malucos passeavam placidamente com suas esposas e filhotes, por entre motores berrantes e fumaça de escapamentos. Os malucos acham aquela barulheira uma ópera e o cheiro de gasolina queimada, perfume francês. Cada uma...
E os carros passam pela pista sem parar. Várias categorias, vários carros diferentes, várias corridas.
Vi um maluco beijar o chão. Segundo ele, o asfalto que recebeu Senna, Piquet, Lauda, Schumacher, Peterson, Gilles, Prost e Emerson é mais sagrado que o Santo Sudário.
Ah, esses malucos. Senhores com olhar de meninos. Meninos com olhar de primeiro encontro. Um mundo diferente, bem ali. Um esporte latejante, vivo, que muita gente nem desconfia.
Um outro maluco estava junto ao muro dos boxes, brincando de cronometrar as voltas dos carros de corrida, feito um menino. Reparei nos olhos um pouco marejados. Era emoção.
Esse maluco era eu.